UFC 229: um circo animalesco

Publicado em 12/10/2018
Imagem do Artigo UFC 229: um circo animalesco

Não é de hoje que lutadores adquirem a estratégia de abalar seu adversário falando muito, provocando muito e, depois, quebrar a cara. É uma estratégia que até funciona muito bem no início, mas depois quando um lutador experiente e/ou inteligente descobre qual a verdadeira intenção do linguarudo, o feitiço vira contra o feiticeiro.
McGregor extrapolou os limites e quebrou a cara! O Irlandês confundiu o jogo mental com a calúnia. Para não errar tão feio, ele deveria ter estudado mais, o melhor lutador de todos os tempos, o poeta, o mais famoso de todos. Quem? Muhammad Ali!
Além de lutador excepcional, Ali ficou famoso por falar demais, sempre com a intenção de “entrar” na cabeça do oponente, e fazia isso com maestria e nobreza:
“Eu lutei com um Jacaré, eu também lutei com uma baleia, eu algemei um relâmpago, eu joguei o trovão na cadeia! Somente na semana passada eu matei uma rocha e machuquei uma pedrinha! Mandei um tijolo para o hospital, e eu sou tão malvado que faço a medicina adoecer! ”
Estas palavras foram ditas antes da luta no Zaire contra o grande George Foreman. Ali entrava na luta e também na cabeça dos seus oponentes, não somente com palavras, mas também com atitudes, chegava a baixar totalmente a guarda para fazer os oponentes ficarem cegos de arrogância e raiva. Porém este americano/mulçumano nunca atacou o país, a família ou a religião de seus oponentes, Muhammad Ali seguia um código de honra e jamais foi covarde com palavras ou atitudes.
O tempo passou e, ainda hoje, muitos atletas seguem este exemplo, principalmente no MMA, modalidade com mais evidencia hoje, como por exemplo Anderson Silva, Chael Sonnen, Daniel Cormier, entre outros.
Quantas vezes vimos Chael Sonnen insultando o Brasil ou a família de Anderson Silva? Chael chegou a vestir a camisa do Palmeiras, principal adversário do Corinthians, equipe de Anderson na época. O americano sabia o que estava fazendo, e Anderson sabia o que estava acontecendo e se blindava contra as investidas mentais do Chael.
Quando se entra na zona interna do oponente, este deixa de focar na luta para focar em sentimentos de raiva, ódio, vinganças... é quando ele começa a errar e abrir brechas. Assim se derrota, de dentro para fora.
Foi assim que McGregor entrou na zona interna de José Aldo, eu estava assistindo aquela primeira luta e, logo no início, quando vi José Aldo correndo em direção ao McGregor, sem calma, sem concentração, na mesma hora pensei: perdemos a luta, a zona interna do nosso brasileiro foi atingida!
O McGregor se tornou especialista em shows! Antes dele, as guerras de zonas internas não extrapolavam os princípios de ética.  Antes do irlandês, não falavam mau de países, religião, ou família, porque qualquer grande lutador possui um código de HONRA!
Código esse que o McGregor, em nome do dinheiro, da fama e de seu próprio ego, não honrou.
O mais interessante é que nem mesmo o “todo poderoso” Dana White, que sempre presou o profissionalismo de seus contratados, chamou a atenção de seu funcionário irlandês falastrão. Talvez por Dana nunca ter praticado uma arte marcial, não leve tão a sério esse código de honra, porém, após o UFC 229, ele vai ser obrigado a repensar em tudo que está acontecendo e, quem sabe, começar a impor limites éticos a funcionários.
Entre lutadores de honra, entre esportistas e também entre grandes homens de negócios, há uma linha ética que jamais deve ser cruzada. Pessoas de bem, pessoas de honradas, artistas marciais que tem um grande legado ou que querem construir um grande legado, jamais praticam essa calúnia comercial!
Respeitar o oponente é um sinal de extrema autoconfiança! Respeitar o oponente é um sinal de integridade!
Quem não é íntegro não merece ser herói! Se o presidente do UFC tivesse freado a língua do irlandês, provavelmente famílias do mundo inteiro não teriam testemunhado tamanho circo animalesco no último evento.
O que o McGregor fez foi uma calúnia, não um ataque na zona mental, caluniar o oponente é um ato de covardia.
Somente um animal para parar outro animal. Quando lutamos, temos que trazer à tona sentimentos animalescos! Sentimentos de guerra! Não é fácil invocar esses sentimentos e, mais difícil ainda, é desliga-los após a luta, precisamos de muito controle e inteligência emocional para não matar o nosso oponente.
Agora imagina toda a tensão de uma disputa de cinturão do maior evento de MMA do mundo, contra um dos principais atletas da atualidade e, para piorar, tanto esse atleta quanto a sua equipe estão caluniando sua família, seu país e sua religião. Após vencer o combate, quando o atleta desliga a zona interna e começa a ver toda a zona externa, aos poucos está desligando também o modo “seek and destroy” (encontre e destrua), neste momento ele observa o time do seu adversário o caluniando ao lado do cage, poucos conseguiriam parar de lutar.
Khabib Nurmagomedov entrou pronto para encontrar e destruir qualquer um que caluniasse o a sua família, seu país ou a sua religião, e isso ultrapassou a barreira da jaula de oito lados.
Claro que faltou mais autocontrole emocional, mas como se auto controlar numa situação desta? Uma situação que não foi nem controlada pelos próprios dirigentes. Como?
Exercendo a “Gratidão! ”, que tem um poder enorme de desligar o modo “seek and destroy” assim que terminar o combate, antes de entrar na zona externa, o combatente tem que ligar o modo gratidão, ser grato, e esquecer a guerra que aconteceu.
Um grande exemplo é o atleta Lyoto Machida, que foi ensinado desde criança a seguir esse código de honra. Nesse código, agir com gratidão é uma atitude sábia. Vemos o exemplo e o poder de controle emocional dele após vencer um adversário. Quando Machida vence e se mantém autocontrolado demonstra o quanto ele é grato pela sua arte marcial, o quanto ele é grato por ter tido um grande adversário, o quanto ele é grato por viver aquele momento, o quanto a gratidão de Machida honra tudo naquele momento.
Esta nova fase vitoriosa do Dragão Lyoto demonstra tamanho desenvolvimento de sua inteligência emocional, que apesar de toda a educação que recebeu durante toda a vida, conta também com a ajuda de um processo de Coaching com o PHD Paulo Vieira. O método de coaching da FEBRACIS treina esportistas a desenvolverem a gratidão em seus desafios esportivos.
O exemplo de Machida deveria ser passado para todas as famílias e esportistas que prestigiam tamanho evento, o exemplo de Ser Grato, e também usar a gratidão como ferramenta para frear os sentimentos de guerra que tem no esporte. 
Khabib é um lutador jovem, creio que depois desse evento vai saber se controlar melhor, e não vai cometer o mesmo erro outra vez, mas enfatizando que a liderança do UFC poderia ter evitado todo esse circo animalesco. A diferença entre nós humanos e animais irracionais é: podemos assumir o personagem animal em determinado momento para conseguirmos o objetivo e, depois, podemos voltar a seres racionais, porém o animal não consegue assumir um papel de ser humano.
Por isso intitulei este texto como UFC 229: um circo animalesco pois faltou, de todas as partes, inteligência emocional para saber o que é certo e o que é errado.

Como vim e sou do Wrestling não poderia dar outro exemplo:
A mentalidade de um wrestler é vencer um grupo grande de nações! Quando o wrestler luta um mundial ou uma olímpiada, ele vai para ganhar de 20 nações em um final de semana ou num único dia. Ele no mínimo faz cinco lutas duras para ser campeão e, após a final, existe respeito! Não há outros atletas desafiando ou incitando alguma briga, mesmo porque a organização jamais toleraria esse tipo de atitude antiética.
Já presenciei muitos duelos de Wrestling entre EUA e Rússia e, apesar da rivalidade, nunca, nunca em toda a história, aconteceu uma briga em nenhum evento. Se houve alguma, as organizações tomaram as medidas cabíveis punindo os responsáveis. Que o UFC 229 fique como lição, não podemos repetir mais nenhum circo animalesco.

  • World Tatami
  • TV Pegada
  • Polvo Team Fight Club
  • Pro Fight MMA Brasil 41