O Jovem Sonho Americano e o Capitão América do Wrestling

Publicado em 29/08/2018
Imagem do Artigo O Jovem Sonho Americano e o Capitão América do Wrestling

Por: Coach Elison Dantas, primeiro brasileiro membro de um time de Wrestling da NCAA, em 2005 e 2006 ficou em terceiro lugar por equipe no campeonato de Wrestling nacional da NCAA. Recebeu o anel de honra do clube Oklahoma-Sooners. Fundou e atualmente dirige a WEFA - Wrestling and Education For All (Luta e educação para todos), organização sem fins lucrativos que ajuda a popularizar o Wrestling no Brasil.

Como Wrestling Manager, a cada temporada na Universidade de Oklahoma - Sooners, tive uma vida intensa e cheia de surpresas. Era comum entrar na sala de lutas e encontrar Kendal Cross (campeão olímpico 1996) treinando com Michael Lightner, ou Sara Mcmann (prata olímpica em Atenas) treinando com o masculino, ou ainda Muhammed Lawal “King Mo” chegando para treinar, sempre contando piadas e nos fazendo rir muito, além de outros grandes nomes.
Dentre esses grandes, um certo dia apareceu um jovem que o apelidei de Ronaldinho. Meu coach Jack Spates mandou me chamar no seu escritório e disse: “ Elison, está chegando um jovem campeão, número cinco do mundo na categoria júnior, ele chega para visitar a nossa equipe, quero que você o acompanhe e faça se sentir em casa! Fale com ele em espanhol, leve ele para jogar bola, conhecer mais latinos, comer comidas latinas, conhecer meninas latinas, etc. Ele é, hoje em dia, o melhor dos USA Wrestling, temos que recrutá-lo, seu nome é Henry Cejudo!”
Como expliquei na nossa primeira matéria, “Como funciona o Wrestling nos EUA”, os grandes times universitários de Wrestling fazem de tudo para recrutar grandes nomes. Henry passou todo o final de semana conosco, levamos para jogar bola, festas, conhecer o campus da universidade, até um encontro com o reitor universitário o meu chefe conseguiu para Henry, no final comecei a chamar ele de Ronaldinho Gaúcho, porque ele mencionou o craque várias vezes quando jogamos futebol.
O final de semana passou, o jovem Cejudo não assinou nenhum termo de compromisso e disse que iria pensar. Resumindo, eu não tinha a mínima ideia que estava diante de uma futura lenda, isso foi no ano de 2005.
Pouco tempo depois, no início de 2006, tirei alguns dias de folga do time e faltei aula, e fui fazer uma aclimatização no Centro de Treinamento Olímpico (OTC) do Colorado Springs e também para competir o Memorial Dave Schultz. Nessa época conheci um grande Judoca chamado Tulio Perrone, que me deu estadia em Colorado Spring. Ao chegarmos no OTC, logo no saguão, Túlio me apresentou o Eric Albarracin, que na época era um sargento do exército americano que vivia na cidade e acompanhava e treinava junto com o Henry Cejudo.
O Centro de Treinamento Olímpico do Colorado Springs é o quartel general do USA Wrestling, geralmente é onde que todos se reúnem para aclimatização antes de grandes competições e, principalmente, é onde wrestlers se mudam para viver e treinar com o objetivo de buscar o sonho olímpico.
Nas semanas que antecederam a Copa Memorial Dave Schultz, equipes de todo o mundo se reúnem para treinar e se aclimatizar nesse local, e num desses dias, após uma sessão, já fazendo sauna, encontrei com o Cejudo e o veterano Joe Williams (Universidade de Iowa - Hawkeye), e lhe disse que o Coach Spates ainda queria assinar um compromisso com ele na nossa equipe, e Cejudo respondeu que não iria para a universidade agora. Foi então que Joe puxou-lhe a orelha dele e disse: “Henry tantas universidades boas querendo te dar uma oportunidade! Você tem que pensar no futuro!”
Henry nos respondeu: “Joe primeiro eu vou ser um campeão olímpico, vou colocar o meu nome numa sapatilha e depois vou estudar em alguma universidade”.
Só para resumir a minha participação na Copa Memorial Dave Schultz, alguns dias depois machuquei o meu tornozelo e fiquei fora da competição, só voltando a competir em 2007. Mas foi um ano muito produtivo, era o meu primeiro campeonato pan-americano como membro de uma equipe.
No verão de 2006, fui convidado pelo Pedro Gama Filho, presidente da Confederação Brasileira de Wrestling, para ajudar a equipe brasileira no Campeonato Pan-americano do Rio de Janeiro, evento preparatório para os Jogos Pan-americanos do ano seguinte.
Os chefes da equipe brasileira, o Flávio Cabral, Alejo Morales e o Edson Kudo, tinham me pedido informações dos lutadores e lutadoras que iam chegar para competir no RJ, e entre eles falei: “todos são normais, excerto um jovem que vem do escolar americano e todo mundo fala que será a próxima estrela! Ele tem dezenove anos e se chama Henry Cejudo, é o Ronaldinho do Wrestling Americano! Na hora um brasileiro casca grossa da mesma categoria de Cejudo sorriu ironicamente, como que se o garoto não poderia ganhar o campeonato pan-americano.
Após passar algumas semanas de aclimatização em Brasília com a seleção brasileira, seguimos para a competição no RJ, e quem encontro? Henry “The Messenger” Cejudo e o seu fiel amigo e companheiro Eric “Capitão América” Albarracin, e conversamos bastante.
Percebo hoje que a grande jornada desses dois grandes nomes somente estava começando. Nesse ano de 2006, o jovem Henry de 19 anos foi campeão Pan-americano, ganhando facilmente de um cubano medalhista em mundiais; venceu o Nacional Americano e, em seguida, em 2007, foi campeão dos Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro e, no ano seguinte, foi campeão olímpico em Pequim.
Cejudo se tornou o primeiro atleta escolar a vencer um campeonato Sênior Americano e, mais impressionante ainda, foi o mais jovem wrestler a vencer os Jogos Olímpicos, com apenas vinte e um anos de idade (feito que durou até a chegada do Kyle Snider, que venceu os jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 com 20 anos de idade).
Já em 2013, quando iniciei a minha jornada no Wrestling brasileiro, estava no Rio de janeiro para o Torneio da Juventude, quando soube que o Eric Albarracin, já capitão aposentado do Exército americano, estava vivendo no Rio de Janeiro como treinador de Wrestling da Team Nogueira, e gravando o reality show do UFC no Brasil.
Fui visitá-lo e levei mais dois jovens para treinarmos. Depois do treino conversamos bastante, uma dessas conversas foi a aposentadoria do Henry no Wrestling e sua a entrada para o MMA, foi então que Eric profetizou: “Henry vai ser um campeão do UFC”! Passaram cinco anos, e a profecia do Sonho Americano se realizou: Henry Cejudo conquistou o tão sonhado cinturão ao vencer Demetrious Johnson.
A jornada para vencer não é fácil, existem altos e baixos. Somente citei as vitórias, mas quantas derrotas esses dois caras já não sofreram juntos?
Vejam só que interessante: a equipe olímpica americana de Wrestling estilo livre em 2008 contava com seis integrantes, três deles conquistaram cinturões importantes no MMA. Ben Askren (One e Bellator), Daniel Cormier (UFC) e Henry Cejudo (UFC), isso sem falar do Steve “Bear” Mocco, que vem lutando MMA e pode talvez chegar no cinturão.
Para mim, o mais gratificante é que vi todos esses quatro lutadores no ambiente da NCAA que vivi. Essa é a geração olímpica de wrestlers que vem fazendo a diferença no MMA.
Albarracin e Cejudo sempre passam temporadas de treinamentos no Brasil, muitas vezes em Natal com a equipe Pitbull Brothers, o Capitão América como treinador se consagrou no mundo do MMA. Lutadores como Paulo Costa “Borrachinha”, Irmãos Pittbull (Patrício e Patricky Freire), Henry Cejudo e outros são como se fossem sua família, uma família de CAMPEÕES.
A jornada do “Sonho Americano” e do “Capitão América” ainda nem chegou à metade. Quais serão os novos capítulos dessa fascinante história?

Foto: arquivo pessoal

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