Como funciona o Wrestling nos EUA

Publicado em 08/08/2018
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Por: Coach Elison Dantas, primeiro brasileiro membro de um time de Wrestling da NCAA, em 2005 e 2006 ficou em terceiro lugar por equipe no campeonato de Wrestling nacional da NCAA. Recebeu o anel de honra do clube Oklahoma-Sooners. Fundou e atualmente dirige a WEFA - Wrestling and Education For All (Luta e educação para todos), organização sem fins lucrativos que ajuda a popularizar o Wrestling no Brasil.

O Wrestling ficou famoso no Brasil depois que lutadores americanos começaram a se destacar vencendo, principalmente, no UFC. Nomes de wrestlers americanos famosos como: Dan Sevener, Mark Kerr, Tito Ortiz, Chuck Liddel, Randy Couture, Mark Schultz, Matt Lindland, Cain Velasquez, Daniel Cormier, Johny Hendricks, Henry Cejudo, Phill Davis, entre muitos outros grandes atletas.
Você sabia que todos eles têm algo em comum no Wrestling? Todos são All Americans, que é o título conquistado por um estudante atleta amador (escolar ou universitário) que se classifica entre os oito melhores dos Estados Unidos da América.
Geralmente as universidades tradicionais recrutam os All Americans das high schools (escolas secundárias), mas para entrar nas universidades, além de lutar muito, é preciso ter notas acadêmicas acima da média escolar, por isso os atletas precisam ser muito disciplinados, mantendo a vida inteiramente dedicada aos estudos e ao esporte.

Como se desenvolveu o Wrestling Acadêmico na América
No início do século XX os Americanos criaram Ligas Estudantis para organizar e desenvolver esse esporte de combate nos EUA. Nesse período, a primeira Liga expressiva era chamada de IAAUS - Intercollegiate Athletic Association of the United States (Associação Inter Universitária Atlética dos Estados Unidos), que depois em 1910 foi renomeada para a atual NCAA - National Collegiate Athletic Association (Associação Nacional Atlética Universitária).
Em 1927 foram criadas e publicadas as regras do Wrestling Escolar e Universitário Americano que é chamado de American folkstyle (Estilo Folclórico Americano).
Depois de um início exclusivamente masculino, as americanas começaram fundar pequenos clubes estudantis escolar na década de setenta (mais ou menos) e, em 1994, já existiam 804 lutadoras de Wrestling Escolar nos EUA,  porém somente depois da virada do milênio que o Wrestling Acadêmico Feminino começou se desenvolver bastante, com suas próprias ligas, competições e com sua própria associação chamada de WCWA - Women´s Collegiate Wrestling Association, e hoje em dia já existe mais de 14 mil lutadoras nas escolas secundarias americanas.

Estilos de Wrestling
Wrestling é dividido em três estilos: o Livre (Freestyle), que é livre para atacar abaixo da cintura, o Greco-romano (Greco), que somente pode atacar acima da cintura, e o Acadêmico (American Folkstyle), que foi criado para manter a integridade física dos jovens atletas, já que aconteceram muitos acidentes enquanto utilizavam as regras olímpicas. Regras essas que proíbem quedas de grandes amplitudes ou técnicas arriscadas.
No Folkstyle americano predomina o valor do domínio do oponente e com isso a consequência das quedas, é conhecido como um estilo muito agressivo, pois o atleta precisa estar muito bem preparado fisicamente e mentalmente.
Porém no Wrestling Feminino a coisa é diferente, foi decidido pela WCWA utilizar apenas as regras do estilo Livre Olímpico tanto no escolar como no universitário. Vale ressaltar que algumas meninas lutam o Folkstyle, mas isso só acontece nas escolas secundárias que não tem equipes femininas, onde as atletas lutam contra meninos.
Isso também acontece no estilo Greco-romano, como não existe o feminino, algumas jovens lutadoras americanas estão sendo pioneiras e competem contra lutadores masculinos.

Temporadas e Pré-temporadas
A pré-temporada do Folkstyle americano se inicia com o ano acadêmico depois das férias, geralmente no mês de agosto e vai até o final de outubro, é na pré-temporada que se focaliza no condicionamento físico, mental e em ensinar novas técnicas a equipe. Cada equipe de Wrestling possui seu próprio estilo técnico, e os novos atletas que chegam se adaptam durante a pré-season.
A temporada propriamente dita, se inicia logo no primeiro final de semana do mês de novembro e vai até Campeonato Nacional Escolar ou Universitário, que acontece no final do mês de março. Ou seja, as equipes de Wrestling viram o ano competindo e treinando e somente descansam no início de abril que coincide com o início da primavera.
Após um rápido descanso de 10 dias, os wrestlers que possuem o desejo de entrar na seleção nacional de Wrestling Olímpico ou na seleção nacional universitária para o Mundial Universitário, iniciam os treinos nos estilos Olímpicos (Livre ou Greco-romano).
E assim, do final do mês de abril até terceiro final de semana do mês de julho é feito mais um ciclo para a temporada de Wrestling de estilos Olímpicos, que termina com duas competições no mês de julho: Fargo, competição na categoria de idades cadete e júnior, e University Nationals, que é a competição para estudantes que desejam lutar o mundial universitário.
Finalmente após essas duas competições a maioria dos wrestlers tiram umas férias de 20 dias, para depois recomeçar tudo outra vez no mês de agosto.

Recrutando wrestlers
Após quatros anos na high school, os wrestlers que possuem notas acima da média conseguem ir para uma universidade. Os primeiros à serem recrutados são os All americans, depois vem o letterman jackts (jaqueta de couro), esses são aqueles que estão entre os melhores do estado, e por último eles recrutam jogadores de football, lutadores que nunca se classificaram ou até estrangeiros (raramente).
Antigamente se recrutava muitos lutadores por revistas especializadas, os técnicos universitários pesquisavam em revistas, como a Win Magazine e a Wrestling News, enviavam cartas convidando-o para uma visita, ou então o próprio wrestler enviava um currículo com uma fita VHS com vídeos de suas lutas para ser analisadas. Porém hoje em dia existe websites como Wrestling Recruit ou Intermat Wrestling que auxiliam no recrutamento.
Após visitarem as universidades, os All Americans firmam um termo de compromisso com o time universitário escolhido e somente podem pedir transferência com consentimento do Head Coach (técnico líder) do time universitário.
Após quatros anos de competição universitária geralmente se graduam e podem seguir os seguintes caminhos: geralmente a grande maioria desses estudantes wrestlers entram no mercado de trabalho e se aposentam, uma outra parte se torna professor de escolas secundárias e, posteriormente, técnico de equipes, alguns decidem ficar na vida acadêmica fazendo mestrados e doutorados, outros poucos tentam o sonho olímpico, ou carreira como técnico universitário e pouquíssimos seguem a carreira lutador profissional.
Antes do Boom do MMA, os All Americans tentavam a medalha olímpica, essa era o maior objetivo, porém hoje em dia a medalha olímpica não dá tanta fama e dinheiro como o MMA profissional, e isso cria um certo problema em fabricar novos campeões olímpicos de Wrestling nos EUA.
Quando os All americans decidem buscar o sonho olímpico eles ganham cargos de assistente técnicos nos times universitários e assim ao mesmo tempo que treinam e fortalece a equipe eles assessoram o head coach, mas com essa nova tendência, alguns deixaram o sonho olímpico e buscaram o sonho do Cinturão milionário.
Quando eu estudava na universidade de Oklahoma Sooners presenciei Daniel Cormier, que na época era assistente técnico, auxiliando da lenda viva John Smith (bicampeão Olímpico) e sendo parceiro de treino do Steve Mooco e se preparando para os Jogos Olímpicos de 2008. Depois, Cormier migrou para o MMA e hoje é campeão de duas categorias: pesado e meio pesado.
Depois de tanto sucesso de wrestlers no MMA, muitos atletas buscam o mesmo sonho de Cormier logo após que se formam. Isso gera uma demanda para o Wrestling Olímpico.
Quando fui membro do USA Wrestling no campeonato pan-americano de 2017 em Salvador, escutei que fenômeno Kyle Snider (ouro Rio 2016) não tem ambições de lutar MMA, mas sim de ser um head coach universitário e construir uma cultura de Wrestling em alguma grande universidade americana.
O dia a dia e o estilo de vida de um wrestler americano, é muito intenso e bruto. Por exemplo: imagina o Daniel Cormier passando por todo esse processo desde criança. Ter que estudar, perder peso, treinar, competir cerca de 15 campeonatos por temporada... depois de mais de dez anos nessa vida, faz a “casca” do cara endurecer bastante, então quando ele chega no MMA a vida é mais fácil.

O formato do Wrestling americano fabrica supercampeões e, nós brasileiros, deveríamos seguir esse exemplo.

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